ANDE COM SEGURANÇA E EVITE TRAGÉDIA
A tragédia que aconteceu no Monte Rinjani, na Indonésia, que tanto nos entristeceu, não foi a primeira que aconteceu lá. Segundo alguns jornais, já ocorreram ali oito acidentes semelhantes. No intuito de evitarmos outras tragédias, pretendo enfocar algumas importantes informações disponíveis sobre este fato, que é emblemático de algumas tendências e comportamentos atuais em relação às trilhas e montanhismo.
A jovem acidentada escolheu um pacote vendido por uma empresa de turismo em uma trilha difícil e perigosa. Hoje esta é uma prática cada vez mais comum: contratar agências de turismo para percorrer trilhas. Apesar da empresa fornecer guias de montanha, há muitos outros fatores a considerar. Para quem tem um bom condicionamento físico a ascensão é feita em dois dias. O solo é traiçoeiro, pois formado por pedra pome de origem vulcânica, desagrega facilmente sob o impacto das pisadas, ocasionando escorregões que podem ser fatais em um dos muitos trechos de exposição às encostas acentuadas. Em caso de acidente, o socorro é difícil. Ali não existe a estrutura que contamos no Brasil, de corpo de bombeiros com especialistas em resgate em montanha com helicópteros à disposição. Além disso a estrada de acesso ao local é lenta e muitas vezes congestionada. A estrutura de socorro médico local é deficiente. Assisti à entrevista de um militar experiente que avaliou os riscos do Monte Rinjani e desistiu de sua trilha.
O que podemos aprender para a nossa própria segurança?
1. Não pense que percorrer trilhas é uma atividade meramente turística. Trata-se de um esporte de aventura, que pode até envolver riscos. Cada trilha é única e precisa ser minuciosamente estudada para minimizar seus riscos, ou até mesmo desistir antes se as condições forem desfavoráveis. Informe-se sobre todos os riscos de uma trilha (inclusive sobre os acidentes que já aconteceram), avalie cada um deles. Se você concluir que os riscos são elevados e podem causar-lhe um acidente sério ou mesmo a morte, desista. Sua vida é muito mais importante. Existem, pelo mundo afora, muitas trilhas com baixo risco.
2. Não entregue sua vida cegamente nas mãos de um guia ou empresa. Infelizmente há agências de turismo vendendo pacotes de trilhas difíceis ou perigosas como se fossem simples passeios em um parque de diversões. O participante, muitas vezes, não é informado sobre os riscos nem dos requisitos para percorre-la. E muitas vezes pensa que, para sua segurança é suficiente o guia fornecido pela empresa. Não é bem assim. Além do guia precisar ser bom conhecedor daquela trilha, precisa também dominar uma gama de conhecimentos e práticas específicos. Um bom guia precisa conhecer técnicas de segurança e orientação em campo e montanha, técnicas de resgate, primeiros socorros avançados e de condução de grupos, entre outras. Há muitos parques nacionais que publicam uma lista de guias credenciados em seus sites. Isso significa que os parques os conhecem e os recomendam. Mas, por melhor que sejam os guias, não dependa totalmente deles. Normalmente colho o máximo de informações sobre a trilha que vou percorrer: relevo, pontos de referência, pontos de água, locais adequados para acampar ou bivacar, prováveis rotas de evacuação, telefones de corpo de bombeiros e clubes de montanhismo próximos; consulto a previsão do tempo. Levo todo o equipamento necessário em minha mochila, inclusive equipamento de orientação (sou adepto da boa e velha bússola silva e do mapa topográfico), e não "desgrudo" dela. Além disso, avalio bem cada ação antes de executa-la. Pense bem e não se coloque em uma situação de risco.
3. Não se satisfaça com as informações fornecidas pelas agências de turismo. Informe-se, decida, prepare-se e equipe-se adequadamente. Informe-se sobre a extensão, o grau de dificuldade da trilha, e o que é necessário: qual o tipo de terreno e microclima específico; se há trechos de exposição perigosa a abismos ou precipícios; se há pontos de abastecimento de água e onde se localizam; equipamento, calçados, vestuário e suprimentos necessários; a disponibilidade de socorro e seu grau de eficiência. Seja detalhista. E enfatizo: consulte a previsão do tempo. Uma trilha bem sucedida começa mutos dias antes, durante a sua preparação. A informação o ajudará a decidir se deve ir ou não, a preparar-se adequadamente, e até mesmo a lidar com imprevistos da maneira mais segura possível.
4. Siga os protocolos de segurança. Tenha uma coisa em mente: segurança na trilha não deve ser confundida com sobrevivencialismo. Não pense que está seguro só porque sabe fazer fogo sem fósforos e carrega uma faca cara (sei fazer todo tipo de fogueira desde adolescente, e isso nunca me livrou de problemas). Nem pense que é só comprar uma mochila de marca famosa e enche-la de cacarecos. Esqueça os tais dos "influencers". Há uma série de protocolos de segurança para os esportes de aventura (também chamados por alguns esportes ao ar livre, ou outdoor). Há regras comuns a todos eles, e outras específicas. Há regras para trilhas curtas, trilhas longas ou travessias, na montanha, para escaladas na rocha, no gelo, e em alta montanha. Domine pelo menos as regras comuns, e depois aprofunde-se na segurança do esporte que escolher. Você pode aprender os protocolos em cursos oferecidos por entidades respeitadas de excursionismo/montanhismo, como o Clube Excursionista Brasileiro (Rio de Janeiro), Clube Alpino Paulista (São Paulo), Federação de Montanhismo e Escalada do Estado de Minas Gerais (FEMEMG) e outras. Também há bons livros nas lojas especializadas em equipamentos de montanhismo. Alguns parques nacionais também disponibilizam algumas dicas de segurança em seus sites. Aqui, algumas dicas: http://maislevenastrilhas.blogspot.com/2018/05/sobrevivendo-com-seguranca.html
5. Esteja bem preparado. E estar preparado inclui bom preparo físico e conhecimento, além de equipamento apropriado. O Mestre Sérgio Beck já ensinava que os equipamentos básicos para a trilha são um bom par de pernas e um cérebro. Se gosta de percorrer trilhas, faça exercícios, caminhe regularmente, suba escadas, alimente-se corretamente, faça consultas e exames médicos regularmente. Leia bons livros sobre trilhas e montanhismo. Aprenda e pratique todos os protocolos de segurança. Aprenda a avaliar problemas práticos e soluções. E nunca se julgue suficientemente preparado, uma "autoridade" em trilha e montanhismo, pois é justamente quando pensamos que "sabemos tudo" que descuidamos e os acidentes podem acontecer.
Agora você já sabe que não deve simplesmente contratar o pacote de uma agência. Informe-se, avalie, prepare-se bem, e haja sempre com bom senso e segurança.
A Bíblia nos adverte que na vida há caminhos que parecem bons, mas levam à destruição (em todos os sentidos). Cuidado com todas as suas escolhas. Elas podem lhe levar a abismos terríveis que você talvez nem esteja percebendo (Provérbios 14:12). Ponha Deus em primeiro lugar, e busque sua orientação em todas as escolhas que fizer. Você andará sempre em caminhos seguros.
Boas trilhas com segurança.
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