Apresento-lhe o Estilo Ultralight

Ultralight x tradicional (Mídia Oregon Live)
      O estilo ultralight (alguns preferem chamar pack light) é definido por caminhar com um equipamento base o mais leve possível. Por equipamento base ou peso base entende-se o equipamento necessário sem a inclusão dos consumíveis (comida, combustível e água, que irão variar principalmente em função da extensão e duração da trilha). Ainda há discussões sobre o verdadeiro limite de peso do estilo ultralight. Os mais rigorosos dividem assim: até aproximadamente 9 kg é pack light; até 4,5 kg é ultralight pack; e abaixo de 2,5 kg (puxa!) é sub ultralight. Prefiro pensar no estilo como um conceito, e para simplificar manter esse peso máximo em torno de 6 kg. Obviamente, o nosso desejo é ficar abaixo dele.
      A expressão "ultralight pack" foi usada pela primeira vez pelo famoso escalador norte-americano Ray Jardine, mais conhecido por ser o inventor do "friend", um importante dispositivo de segurança para escalada. Em seu livro Pacific Crest Trail Hikers Handbook, de 1992, propôs um estilo minimalista para caminhar mais leve e mais ligeiro. É verdade que alguns montanhistas já preocupavam-se com o assunto. Mencionei no post anterior o primeiro livro do mestre Sérgio Beck, publicado nos anos 80, no qual já propunha alguns princípios e práticas do ultralight. Mas foi Jardine quem deu forma ao estilo e iniciou sua divulgação.
      Muito antes, exploradores, caçadores e vaqueiros já praticavam um estilo minimalista, em que dependiam mais de suas habilidades do que de equipamentos. Contudo, Jardine inspirou-se em Emma Ravena Gatewood, a Vovó Gatewood. Esposa de um granjeiro e mãe de 11 filhos, aos 67 anos foi a primeira mulher a percorrer a Trilha dos Apalaches (3.500 km). Seu equipamento: um par de tênis (vermelhos), uma cortina de banheiro como abrigo, um cobertor de lã, e um saco de juta em seus ombros contendo poucos pertences.
      Jardine analisou o equipamento como um sistema no qual todos os ítens se complementam. Destacou os "três grandes", mais volumosos e pesados, e portanto, necessitando mais atenção e soluções: mochila, abrigo e material para dormir. Embora tenha se importado com o peso de cada ítem, enfatizou a necessidade de levar menos coisas. Assim, enfatizou também o uso de equipamentos polivalentes. Por exemplo: bastões de caminhada servem também como os polos do tarp ou da barraca. Agasalhos usados principalmente à noite complementam o saco de dormir, diminuindo a necessidade de um saco mais quente e pesado.
      Ao propor um equipamento mais leve Jardine também argumentou que não há mais necessidade do uso de calçados pesados. Pode-se substituí-los por tênis resistentes ou botas mais leves.
      Obviamente a segurança não pode ser negligenciada, e Jardine concordou que o equipamento poderá variar em função de fatores ambientais como relevo, clima e temperatura (alta montanha, por exemplo).
      Eis os princípios para andar mais leve:
1. Planejamento - Pesquise todos os detalhes sobre sua trilha: extensão, altimetria, pontos d'água, clima, etc. Assim poderá decidir que tipo de agasalho levará, a quantidade de comida, suprimento de água, etc.
2. Mochila leve - A começar pela própria mochila. Você precisará de uma mochila menor, e portanto, mais leve. Mas não abra mão de uma boa barrigueira, dispositivo que possibilita depositar o peso na região da bacia. E deve estar mais leve pelo peso mais leve dos ítens escolhidos e pelas quantidades apropriadas, determinadas pelo planejamento. Mochila mais leve implica também em abrir mão de alguns ítens que nos trazem conforto: isolante inflável (use o mais leve, o tradicional isolante térmico), alguns utensílios de cozinha, barraca espaçosa, etc. Atualmente há fabricantes produzindo equipamentos leves e de qualidade. E alguns ítens podemos nós mesmos produzir, como veremos adiante em outras postagens.
3. Andar mais horas por dia - Obviamente respeitando as condições de segurança e o condicionamento fisico de cada um. Em uma trilha realmente longa faz diferença, diminuindo o tempo total para percorre-la, e consequentemente a quantidade de alimentos e combustível.
4. Caminhar em duplas ou trios - Além  de ser mais agradável, possibilita dividir alguns ítens, como barraca, cozinha, etc.
5. Não sacrificar a segurança - Conforto pode ser dispensável, mas não a segurança. Portanto, ítens de segurança nunca devem ser sacrificados. Agasalho, primeiros socorros, material de orientação (que não precisa ser, necessariamente, um pesado GPS), capa de chuva ou anorak, lanterna, água, comida e combustível em quantidades suficientes nunca devem ser deixados para trás. Nunca subestime a natureza e nem deixe de aprender com os mais experientes.
      Apresentei os princípios. Acrescento mais um, primordial para tudo na vida: Acima de tudo curve-se diante de Deus, use sempre o bom senso e seja humilde. 
      O estilo ultralight, além de mais prazeroso, é mais saudável. Representa menos carga sobre a coluna, joelhos e tornozelos. Apresentarei dicas bem práticas pra que você possa usufrir bem dele. Até breve
Dalton

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